Glifosato: novo estudo mente com estatística


20/02/2019

O uso de dados estatísticos para confirmar informações frágeis e não verdadeiras é um artifício utilizado com frequência. Em 1954 Darrel Huff escreveu o clássico “How to lie with Statistics” “Como mentir com estatísticas”. O autor demonstra neste livro, que o uso da estatística pode endossar qualquer coisa, inclusive fatos não verdadeiros. A depender como os dados são recortados e analisados podem suportar mentiras e fazê-las parecer verdadeiras.

Este é o caso do artigo, que ganhou as manchetes da imprensa internacional e nacional nos últimos dias e diz que a exposição ao glifosato (um agroquímico utilizado para o controle de plantas daninhas) aumenta em 41% o risco de câncer.

A publicação trata-se de uma meta-análise, isto é, uma técnica de estatística utilizada para comparar diferentes estudos já publicados. Em uma meta-análise não são feitos novos testes, apenas releituras de resultados já avaliados.

De acordo com o epidemiologista Geoffrey Kabat, da Universidade de Nova Iorque, esta comparação feita com os estudos de glifosato, não é adequada. Foram utilizados seis estudos para embasar a análise estatística. Um destes estudos é o conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde e Ambiente dos Estados Unidos – Agriculture Health Study (AHS) – com mais de 54 mil aplicadores de pesticidas (45 mil que manipularam glifosato desde meados dos anos de 1990), e divididos em grupos (quartis) de acordo com a exposição. No AHS não houve indicação de aumento estatístico entre a exposição ao glifosato e o surgimento de linfoma non-hodgkin (LNH).

Este estudo, com um resultado robusto, é comparado a outros cinco estudos com qualidade menor, formatos diferentes e número reduzido de pessoas expostas. Os próprios autores classificam em zero dois destes estudos utilizados para fins estatísticos. Os quesitos “zerados” são a avaliação da exposição, a consistência do método e o controle para outros pesticidas (tabela 2, p.52 do artigo Exposure to Glyphosate-based Herbicides and Risk for Non-Hodgkin Lymphoma: a meta-analysis and supporting evidence). 

Mesmo assim, os estudos de baixa qualidade foram utilizados para fundamentar o resultado. Como bem explica o Dr. Kabat, se estes estudos não tivessem sido usados o resultado seria diferente e não renderia manchetes em jornais.

O artigo do Dr. Geoffrey Kabat foi orginalmente publicado no site do Genetic Literacy Project (GLP), traduzido e publicado pelo Ciência e Tecnologia Agro sob autorização do GLP.

Categoria: Editorial,Sustentabilidade